Na empresa, que é um microcosmo da sociedade, um estilo gerencial punitivo, especialmente nos casos em que a ordem e a disciplina se associam à vingança, tem conseqüências destrutivas, afugentando os melhores talentos e desmotivando aqueles que ficam.
Todo executivo deve refletir sobre as razões da impunidade na sociedade para evitar esses mesmos males dentro da organização.
Curiosamente, no Brasil, onde reina a impunidade, temos uma cultura obcecada com a palavra punição.
A imprensa anuncia, todas as semanas, que algum jogador de futebol foi punido.
Pede-se "punição exemplar" para quem desvia verbas destinadas a obras públicas - embora as punições sejam raras, e nunca exemplares -, para políticos flagrados em ilícitos, para administradores públicos que cometem graves erros de gestão ou empresas que emporcalham o meio ambiente.
A cultura brasileira associa punição com mera vingança. Temos impunidade porque, uma vez achado um bode expiatório, mesmo que uma real penalidade não se materialize, sentimos que a justiça foi feita.
A conclusão para a sociedade pode ser a seguinte: temos impunidade porque, em vez de aplicar a lei, freqüentemente aplicamos a vingança - e de forma desigual ou arbitrária.
Temos impunidade porque permitimos que existam aberrações como a "cela especial" para quem tem formação universitária.
Temos criminosos nas camadas humildes porque existem tantos corruptos nas camadas líderes, alguns deles sentenciados a anos de reclusão, que estão soltos e declaram, em entrevistas à imprensa, que esse assunto nem os incomoda.
Talvez exista sonegação porque as autoridades ocasionalmente anunciam que alguém passará por "uma devassa nas suas contas", o que não deixa de ser uma atitude vingativa, já que todo cidadão ou empresa deveria passar por uma auditoria fiscal periodicamente.
A conclusão, levando a questão para o microcosmo da empresa, é um paralelo óbvio que pode ser sintetizado em sete considerações:
- 1) ser líder demanda comportamento ético e moral impecável. Observado pela equipe, o líder tem a obrigação de dar o bom exemplo;
- 2) líderes punitivos ou vingativos deixam de ser líderes quando suas equipes, desconfiadas das arbitrariedades, os abandonam na primeira oportunidade;
- 3) privilégios aberrantes, além de desnecessários, motivam a desunião, dividindo pessoas em "castas" e quebrando o espírito de equipe;
- 4) a empresa moderna cria um clima de controles financeiros que equilibram o poder, minimizam oportunidades de deslizes e, periodicamente, auditam o cumprimento de normas;
- 5) na empresa retrógrada, tudo é proibido, a não ser o que foi expressamente autorizado. Na empresa moderna, tudo é permitido, a não ser o que foi expressamente proibido por meio de normas claras, conhecidas, justas e lógicas;
- 6) o profissional brasileiro está perdendo o respeito pela empresa sonegadora ou "espertinha", que não contribui com o progresso da sociedade.
Nas palavras do renomado consultor Tom Peters, "não existe um pequeno lapso de integridade".
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Marcelo Mariaca é presidente da Mariaca e professor do Brazilian Business School
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